Grada Kilomba: Desobediências Poéticas | Pinacoteca de São Paulo

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Grada Kilomba: Desobediências Poéticas | Pinacoteca de São Paulo

Primeira exposição individual no Brasil da artista portuguesa.

Com curadoria de Jochen Volz e Valéria Piccoli, diretor geral e curadora-chefe do museu, respectivamente, a mostra apresenta quatro trabalhos que ocupam as quatro salas contíguas à exposição do acervo da produção artística brasileira do século XIX da Pinacoteca.

De forte tom político e comprometido com as perspectivas das narrativas pós-coloniais, o conjunto propõe uma espécie de restituição do lugar das vozes daqueles que foram silenciados ao longo da história.

A artista interdisciplinar Grada Kilomba nasceu em Lisboa, em 1968, com raízes em São Tomé e Príncipe, Angola e Portugal.

Atualmente vivendo e trabalhando em Berlim, sua obra tem sido apresentada nas principais exposições e instituições pelo mundo, incluindo a 32ª Bienal de São Paulo; Documenta 14, em Kassel; 10ª Bienal de Berlim; The Power Plant, em Toronto; Kadist Art Foundation, em Paris; Museu Bozar, em Bruxelas; MAAT, em Lisboa; Wits Theatre, em Joanesburgo, entre outros.

Também é autora do livro Plantation Memories (2008) e co-editora de Mythen, Subjekte, Masken (2005), uma antologia interdisciplinar de estudos críticos da branquitude.

Doutora em Filosofia pela Freie Universität Berlin, 2008, desde 2004 tem lecionado em várias universidades internacionais, como a Humboldt Universität Berlin, onde foi Professora Associada no Departamento de Gênero.

Desde 2015, vem colaborando com o Maxim Gorki Theatre, em Berlim.

Conhecida por sua escrita subversiva e pelo uso não convencional de práticas artísticas, Kilomba cria intencionalmente um espaço híbrido entre as linguagens acadêmica e artística, dando corpo, voz e imagem a seus próprios textos por meio de leitura cênica, performance, instalação e vídeo.

Fortemente influenciada pelo trabalho de Frantz Fanon (1925-1961), psiquiatra e filósofo francês da Martinica, começou a escrever e publicar sobre memória, trauma, psicanálise, feminismo negro e colonialismo, estendendo sua pesquisa à performance, encenação, coreografia e visualização das narrativas pós-coloniais. “Quem fala? Quem pode falar? Falar sobre o quê? E o que acontece quando falamos?” são questões permanentes em seus trabalhos, nos quais a artista cria imagens singulares para desmontar os conceitos de conhecimento, poder e violência.

A exposição na Pinacoteca Desobediências Poéticas responde a esta prática singular de Kilomba, que poeticamente desobedece às várias disciplinas, perturbando as narrativas comuns das galerias do museu com uma “nova e urgente linguagem descolonizada“, segundo ela.

A mostra inclui as obras Illusions, nas quais ela se utiliza da tradição oral africana para desempenhar o papel de contadora de histórias, ou griot, para recontar e encenar mitos greco-romanos, virando gradualmente as metáforas e narrativas sobre si mesmas de forma a explorar as estruturas cíclicas dos sistemas de opressão pós-colonial.

Criando cenas de estética minimalista, onde corpos negros se movimentam, Kilomba leva os visitantes a repensar como até a sala de um museu (ou white cube), que integra um sistema que se apresenta como universal, pode encobrir uma lógica colonial e patriarcal.

Illusions Vol. I, Narcissus and Echo (2017), comissionada pela 32ª Bienal de São Paulo, em 2016, em forma de performance e, posteriormente, reconfigurada em uma instalação de vídeo, ocupa a sala A, na Pinacoteca. Nessa obra, que recebeu o prêmio do International Film Festival Rotterdam 2018, a portuguesa aborda o mito de Narciso e de Eco para explorar as políticas de invisibilidade, questionando a noção de “branquitude” como componente imperativo nas memórias e realidades do mundo pós-colonial.

Para a artista, Narciso se torna uma metáfora para uma sociedade que não resolveu seu passado e que considera a sua própria imagem como o único objeto de amor, refletido na superfície da água; enquanto Eco é remetida ao silêncio, repetindo apenas as palavras de Narciso.

A questão que se encerra na obra é: como desnudar esse molde?

Illusions Vol II – Oedipus – Still n. 2 – 2018 – Grada Kilomba

Já Illusions Vol. II, Oedipus (2018), é apresentada na sala B. Comissionada pela 10ª Bienal de Berlim, a obra apresenta o mito de Édipo, que foi sentenciado à morte pelo próprio pai, não sob a perspectiva de desejo, como é comum, mas como uma história de violência.

Já a imagem da Esfinge surge como símbolo desta condição: a personagem mística questiona Édipo sobre o que ele sabe, lembrando-o que algo terrível aconteceu e que ninguém pode escapar ao próprio destino ou passado.

A Esfinge, que devora quem não sabe, aqui liberta os que sabem.

O mito torna-se, no trabalho da artista, uma metáfora para as políticas patriarcais e coloniais de violência, rivalidade e genocídio contra corpos negros e marginalizados. “Uma metáfora para o conhecimento“, explica a artista.

Na versão inédita da obra The Dictionary, concebida especialmente para a Pinacoteca e instalada na sala C, “a artista cria um espaço imerso onde cinco palavras, negação, culpa, vergonha, reconhecimento e reparação, são reveladas e intensamente descritas como os seus sinônimos e antônimos.

As palavras são projetadas nas paredes da sala criando uma cronologia da consciencialização, até desaparecerem novamente, deixando a audiência envolta numa instalação de som”, explica Piccoli.

E, por fim, na instalação Table of Goods, de 2017, apresentada na sala D, a artista exibe uma instalação composta de um monte de terra, posicionado no centro da sala, que emerge do chão com pequenas porções de mercadorias coloniais como açúcar, café, cacau e chocolate.

A obra traz, como eixo principal, a história Transatlântica da Escravatura e do pós-colonialismo, relembrando séculos de mortes de trabalhadores africanos escravizados em plantações para produzir os bens e os prazeres (the goods) das elites.

Neste contexto, Kilomba se utiliza do termo “indizível” como metáfora do trauma causado pelo colonialismo que, tal como uma doença, nunca foi devidamente tratado na sociedade.

“Só quando transformamos as reconfigurações de poder – que significa quem pode falar e quem pode fazer perguntas e quais perguntas – então reconfiguramos o conhecimento. Na arte também produzimos conhecimento, ao criar trabalhos que gerem perguntas que não estavam lá antes (…). Para mim, um dos papéis importantes da criação de um trabalho de arte é desmantelar essas configurações de poder ao recontar histórias que pensávamos conhecer. Dar e criar outro sentido de quem somos. Nós somos muitos”, resume Kilomba.

Grada Kilomba — Performance

Pinacoteca de São Paulo. Praça da Luz, 2 – Centro – São Paulo. Aberta de quarta a segunda, 10h às 17h 30. Até 30/09/19.

Fique atento! Os horários podem ser modificados. Consulte sempre o site da instituição.

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