Joseph Mallord William Turner

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Joseph Mallord William Turner

Joseph Mallord William Turner nasceu em Londres em 23 de abril de 1775. Seu pai era barbeiro, e sua mãe, filha de um açougueiro  A família morava sobre a barbearia, em Maiden Lane, Convent Garden, uma área da capital inglesa que, tal como ainda hoje, estava estreitamente ligada às artes.

Pouco se sabe a respeito de sua mãe, apenas que era propensa a ataques nervosos que a levariam à loucura internada por insanidade no Hospital Bethlem, em 1790, viria a morrer quatro anos depois, num asilo particular. Turner jamais a mencionaria em sua vida adulta.

Com o pai, ao contrário, o relacionamento era muito próximo , embora ele tenha comentado certa vez: “Papai nunca me dispensou elogios, exceto por economizar meio penny”. Esses elogios não foram em vão, pois Turner cresceu como um homem parcimonioso e extremamente astuto nas questões financeiras. E, na verdade, o pai também o encorajava de outras maneiras, inclusive exibindo seus desenhos na barbearia.

Quando garoto, Turner descobriu o amor pelo rio próximo à sua casa: as águas agitadas do Tâmisa, as constantes mudanças no jogo da luz de sua superfície, a neblina que dali emergia para as velas e o cordame dos navios, e mesmo o movimento das docas eram cenas que o perseguiriam durante toda a vida.

Na infância, Turner não recebeu nenhuma educação artística em particular. Entretanto, o treinamento que empreendeu, aliado a seu grande talento, foi suficiente para qualificá-lo a ingressar, aos 14 anos, no curso livre da Academia Real inglesa. Foi o mais jovem integrante da instituição, em toda  história. Ali, Turner trabalhou tão arduamente, e com resultados tão positivos que atraiu críticas favoráveis a patronos. Ainda na Academia, estudou com Thomas Malton, autor de aquarelas detalhadas de motivos arquitetônicos.

A partir de 1794 e durante os três anos seguintes, Turner trabalhou na Monro School, copiando obras de outros artistas por alguns pence por noite. Entre os artistas cuja obra copiou estava John Robert Cozens (1752-1792). Seu contemporâneo e rival, Thomas Girtin, copiava os contornos; Turner completava, adicionando a aquarela. As selvagens e românticas paisagens suíças e italianas de Cozens parecem ter inspirado o jovem artista a procurar pintar tais cenas por si mesmo. E, em 1798, Turner já podia afirmar que tinha bem mais encomendas do que tempo disponível para realizá-las.

Caráter sombrio e fechado

Turner era de estatura baixa e, com o tempo foi se tornando atarracado e pesado, sem que isso prejudicasse sua energia natural. No rosto destacavam-se o nariz e um par de olhos atentos. Vários retratos mostram que seu aspecto era um tanto desalinhado, certamente em consequência do eterno hábito de fazer economia, comprando roupas baratas. Era, sobretudo, um homem seco, taciturno, só revelando na intimidade seu lado mais caloroso. Cercou com uma aura de mistério seus métodos de trabalho e era notoriamente fechado quanto à vida pessoal.

No ano em que ingressou na Academia fez a primeira de uma série de viagens que iriam lhe dar os padrões de sua vida profissional. Exibia grande resistência física nessas viagens e uma instigável capacidade para elaborar esboços rápidos e incisivos em seu caderno de anotações. Seus esboços que, inclusive, formaram a base de suas aquarelas topográficas: os estudos detalhados das construções góticas, por exemplo, que fez até 1796. Nesse ano, aliás, expôs pela primeira vez um quadro óleo, Pescadores no Mar.

No dia 31 de dezembro de 1799 Turner foi eleito sócio da Academia Real. Já era financeiramente independente e assim pôde sair de casa em 1800, estabelecendo-se na Harley Street. Nessa época mantinha um relacionamento com Sarah Danby, mãe de quatro filhos, que enviuvara recentemente, e este relacionamento durou vários anos, embora nunca tenham se casado nem vivido juntos. Os desenhos eróticos que Turner fez nesse período, retratando mulheres nuas, revelam seu vigoroso lado sensual; no entanto, ele nunca permitira que qualquer relacionamento interferisse em seu rígido programa de trabalho.

Ainda em 1799, William Beckford, rico colecionador de arte e um dos patronos de Turner, abriu as portas de sua casa aos que se interessassem em estudar duas famosas pinturas de Claude Lorrain. Esses trabalhos causaram impacto em Turner, que imediatamente decidiu pintar temas históricos nas mesmas grandes dimensões. Ao invés de se sentir intimidado pelos mestres antigos, ele tentava imitá-los, competir com eles e, se possível, superá-los. A feroz competitividade artística era, aliás, outra característica de sua personalidade.

Em 1802, com apenas 26 anos, Turner passou a membro vitalício da Academia Real e, cinco anos depois, tornou-se professor de perspectiva. Apesar de seus desentendimentos periódicos com os colegas e de suas ocasionais ausências das exposições organizadas pela casa. Turner fez da Academia seu lar profissional e emocional: permaneceria sempre fiel a ela.

Carreira gratficante

Turner viajou pela primeira vez ao continente em 1802, motivado por uma exposição no Louvre: Napoleão decidira mostrar os tesouros em obras de arte que pilhara durante suas conquistas na Europa. Turner foi um dos primeiros pintores ingleses a atravessar o canal da Mancha para vê-los. E decididamente em Calais, durante forte tempestade que, num gesto típico dele, reproduziu em desenho no próprio local, acrescentado a nota: “Quase um naufrágio”.

Antes de chegar a Paris, satisfez um antigo desejo, o de conhecer a Suíça – que percorreu em carruagem própria, comprada na medida de economia. Foi uma viagem exaustiva, e Turner comentou muito pouco a respeito do país. Mas os Alpes o impressionaram vivamente, motivando mais de quatrocentos esboços, e estariam, a partir de então, entre os temas que mais abordou. Dez semanas depois estavam em Paris, onde se dedicou a um estudo minucioso de mais de trinta obras expostas no Louvre.

De volta à Inglaterra, e com uma situação financeira cada vez melhor, em 1804 ele se sentiu suficientemente seguro para ampliar sua casa na Harley Street, construindo ali uma galeria onde organizava as próprias exposições: uma novidade entre os pintores britânicos, mas, na verdade, apenas mais um recurso que Turner lançou mão para que seu trabalho fosse visto e mesmo compreendido.

Nos quinze anos seguintes ele iria restringir suas viagens à própria Inglaterra, visitando as propriedades e as regiões de seus patronos, fazendo estudos arquitetônicos e paisagísticos. No entanto, sua paixão por navios, pelo mar e pelos rios jamais arrefeceu.

Depois de viver por algum tempo em Hammersmith, Turner mudou-se para Isleworth, de onde supervisionava a construção de uma nova casa em Twickenham – sempre às margens do Tâmisa. Nessa ocasião seu pai juntou-se a ele, administrando seus negócios e trabalhando como seu assistente no estúdio.

Itália: o impacto definitivo

Mas a primeira visita que fez à Itália, no outono de 1819, iria provocar uma mudança radical em sua vida. Tinha, então, 44 anos e estava no auge de seu poder criativo. A Itália e sua arte o impressionaram sob todos os aspectos, mas nada o tocou tanto e tão profundamente como sua luminosidade. Em apenas dois meses, preparou aproximadamente 1.500 esboços em grafite. E teve, também, a oportunidade de observar e desenhar a erupção do Vesúvio. Um espetáculo sob medida para seu gosto.

Depois de conhecer a Itália, Turner se decidiu a expressar uma visão própria da luminosidade e de seu poder. Nenhum artista antes dele imprimia a mesma intensidade ao tratar a luz enquanto pura cor. Apesar disso, ele não rompeu com seu passado, apenas estabelecendo uma nítida divisão entre o trabalho que fazia para manter sua renda e as telas experimentais, onde sua criatividade não via limites.

Em 1828, Turner estava de volta a Roma e novo explosivo impacto iria se desenvolver a partir dali em sua produção. No ano seguinte, porém, a morte de seu pai, aos 85 anos, foi um golpe muito terrível. Algumas visitas a Petworth, a convite de Lorde Egremont, trouxeram-lhe certo conforto e estimularam uma série de esplêndidos interiores.

Logo depois, por volta de 1833, tudo indica que Turner iniciou novo relacionamento amoroso, com Sophia Booth, uma fazendeira de Margate. Tal como Sarah Danby, a senhora Both era viúva recente e dispunha de meios próprios de sobrevivência; na verdade, já se casara duas vezes antes. Mas, como sempre, um mistério envolveu também esse relacionamento e só, se sabe mesmo que os dois estiveram juntos até a morte do pintor.

Logo no início da década de 1830, Turner passara a retratar cenas de Veneza e, após nova visita, em 1855, a cidade e sua extraordinária luminosidade tornaram-se uma obsessão, permeando definitivamente sua obra. Só que ela já estava ousada demais para o gosto popular da época, e o público não escondia sua contrariedade. Turner, porém, vivia sua plana maturidade artística.

Ele se isolava sempre mais. Comprou uma casa em Cheyne Walk, em Chelsea, numa curva do rio Tâmisa, onde viveu com a sra. Booth e em cujo sótão montou uma pequena galeria. Tornou-se mais recluso do que nunca, chamando a si mesmo de sr. Booth. Estava com mais de 70 anos e sua saúde dava sinais de declínio. Morreu em 19 de dezembro de 1851, em seu quarto, observando o Tâmisa.

Foi enterrado na Catedral de São Paulo. Antes dos funerais, porém, os presentes se surpreenderam ao encontrar em sua galeria no sótão uma quantidade enorme de pinturas, muitas delas apodrecendo em seus esticadores e manchadas por goteiras. Em seu testamento, Turner deixava para sua pátria cerca de trezentos quadros a óleo e aproximadamente 20.000 aquarelas, pedindo que fossem alojados numa galeria especial. Também determinava que sua fortuna – somando 140.000 libras – fosse destinada a uma instituição que atendesse artistas ingleses necessitados, do sexo masculino. Mas seus desejos não foram cumpridos.

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