Edgar Degas

Edgar Degas

Entre os alegres frequentadores do Café Guerbois, na segunda metade do século 19, a figura taciturna de Edgar Degas destoava. No entanto, esse artista voluntarioso, de rosto amplo e macio, testa estreita e certo ar distante, iria figurar em quase todas as exposições impressionistas. Mesmo que raramente tenha pintado paisagens, iluminando seus quadros com uma luz artificial e fazendo da nudez um instante de exceção. Degas que admirava os artistas mestres da pintura italiana, sem que isso o impedisse de ter ideias avançadas e de exercer um papel fundamental na evolução da pintura de seu tempo. Ele faria das impressões fugidas, que transpôs de modo sutil e meditativo, embora por vezes cruel, uma expressão cheia de dinamismo do seu próprio tempo.

No entanto, as informações biográficas a seu respeito convergem sempre para o mesmo ponto: foi uma pessoa triste, esquiva, de palavras afiadas e irônicas, cuja existência transcorreu sem acontecimentos extraordinários, marcada quase exclusivamente pelo trabalho artístico e pelo medo da cegueira, que o rondou cada vez mais perto.

Seu nome completo era Hilaire-Germain-Edgar de Gas. té 1873, ele assinou suas obras como “De Gas”, adotando depois a simplificação conhecida. Nasceu em Paris, em 19 de julho de 1834, pertencente a uma família da alta burguesia parisiense, cuja origem remontava à Bretanha. Durante a Revolução Francesa, seu avô, Hilaire-René, ficou-se em Nápoles, onde fundou um banco, assegurando, assim, um bom patrimônio e uma posição social elevada a seus descendentes. Auguste de Gas, o pai de Edgar, nasceu em Nápoles. Já adulto, transferiu-se para Paris, onde abriu uma filial do banco paterno. Casou-se com uma jovem norte-americana, Celestine Musson, de Nova Orleans e de ascendência francesa, que morreu quando Edgar estava apenas com 13 anos.

Auguste de Gas, que teve educação tradicional e sempre se sentiu atraído pela música e pelas artes plásticas, procurou educar o filho no mesmos moldes. Assim, o menino, ainda pequeno, já frequentava os salões do Louvre e participava das reuniões do pai com artistas amadores e colecionadores de arte. E, 1845, foi matriculado no Liceu Louis-le-Grand e ali completou os estudos colegiais. Sempre incentivado pelo pai, Degas transformou em estúdio um aposento da residência da família, na rua Mandovi. Dedicava-se ao desenho e à pintura, revelando inclinação precoce.

Mas, em 1852, seguindo a tradição das famílias burguesas, ingressou no curso de Direito sem, no entanto, abandonar a arte. Quando fez 20 anos, o pai lhe permitiu abandonar o curso de Direito para dedicar-se exclusivamente à pintura. Passou, então, a estudar com Louis Lamothe, que, embora medíocre, fora discípulo de Jean-Auguste-Dominique Ingres. O próprio Degas chegaria a conhecer Ingres pessoalmente em 1855, nessa época com 75 anos, e guardaria um conselho: “Desenhe as linhas, jovem, muitas linhas, que venham a sua mente ou da natureza; dessa maneira você vai se tornar um grande artista”. Certamente era isso que Degas gostaria de ter ouvido, pois sua habilidade já o conduziria a uma preferência natural pelo traço.

A OBSESSÃO PELO TRABALHO

Para assimilar diretamente o que se produzira de melhor no Renascimento, Degas fez três viagens à Itália, quando esteve em Nápoles, Roma, Assis e Florença, aproveitando também para visitar seus tios e primos italianos, os Bellelli, de quem fez um notável retrato chamado A Família Bellelli. As duas primeiras viagens, em 1854 e 1856, pouco representaram no desenvolvimento de sua pintura. A viagem mais importante foi em 1858, quando de fato se empenhou no estudo do Renascimento italiano; desta vez esteve também em Viterbo e Orvieto, onde estudou os afrescos de Luca Signorelli.

Retornou a Paris em 1862, ano em que conheceu Édouard Manet, cujas afinidades de origem e de formação acabaram por aproximá-los. Mas, foi sobretudo, o amor à pintura que reforçaria essa amizade. Dois anos mais moço que Manet, foi por seu intermédio que Degas se aproximou do grupo de artistas que, dez anos mais tarde, seria conhecido como impressionista. Manet, por sua vez, já se firmava como um arrojado pintor, e sua influência sobre Degas seria sempre benéfica. Nutriam, além de tudo, mútuo respeito.

Durante a década de 1860, Degas fez muitos retratos, principalmente de músicos que se apresentavam na casa de seu pai. No início dessa mesma década, durante a temporada na Normandia, na propriedade de seus amigos Valpinçon, Degas começara a se interessar em pintar cavalos; daí em diante, passava muitas horas no hipódromo de Longchamp, desenhando os jóqueis e suas montarias.

Foi um obcecado pelo trabalho: “Quando não estou trabalhando, mesmo que seja por algumas horas, sinto-me culpado e estúpido”, disse certa vez. Mas em sua vida havia sempre um lugar para os amigos; para o amor, não, pois segundo o que se sabe nunca chegou a se envolver com nenhuma mulher. Nesse sentido, aliás, teria comentado: “Existe o amor e existe o trabalho, mas se tem apenas um coração”.

Quando a França entrou em guerra com a Prússia, em 1870, Degas serviu em Paris, no setor de artilharia. Nessa época, sua vista, que já não era perfeita, começou a dar sinais alarmantes de piora, fazendo com que, a partir de então, o artista vivesse pelo resto da vida sob o terror de uma cegueira total.

Depois de terminada a guerra, começou a frequentar a Ópera de Paris, inclusive durante os ensaios, onde pintou muitas de suas bailarinas. Em 1872-73, passou um período de seis meses em Nova Orleans, nos Estados Unidos, visitando familiares por parte de sua mãe. Ai fez um quadro de temática absolutamente nova para a época: A Bolsa de Algodão de Nova Orleans, em que aborda o frio mundo das bolsas de mercadorias da nova sociedade industrial.

Em 1874, quando morreu seu pai, vieram à tona as dívidas contraídas pelo banco e, dois anos depois, René, um dos irmãos de Degas, afundou-se em dívidas num negócio malsucedido em Nova Orleans. Assim, para preservar o nome da família, Degas e um cunhado, o Duque Edmond Morbilli, assumiram essas dívidas. Para isso, o pintor teve que vender sua casa e, pela primeira vez, se viu forçado a viver da pintura.

Ainda em 1874, Degas passou a tomar parte na preparação daquela que seria a primeira mostra impressionista: junto com ele, Pissarro, Monet, Renoir e outros formaram uma sociedade para montar, em Paris, uma exposição independente do Salão oficial. Degas empenhou-se com entusiasmo nesse empreendimento e apresentou cerca de dez obras. Ele, no entanto, diferia dos outros impressionistas em alguns aspectos. Por exemplo, não era um adepto da pintura ao ar livre, preferindo trabalhar no estúdio.

INSOCIÁVEL E DEPRESSIVO

Seu temperamento retraído e sua língua ferina acabaram por legar-lhe o apelido de Urso, animal cuja aproximação é perigosa. Era também uma pessoa extremamente ciumenta de seu estúdio, um lugar sagrado, sempre à meia-luz e repleto de pastas, caixas, quadros e outros materiais, em aparente desordem, mas que ninguém, exceto ele, tinha o direito de tocar. Na verdade, poucos tinham permissão de entrar ali, além dos modelos e marchands.

Ligado ao movimento impressionista, Degas participaria de sete das oito exposições do grupo, realizadas entre 1874 e 1886. E é do final da década de 1870 que data sua amizade com a pintora americana Mary Cassatt. Muitos amigos de Degas acreditavam que fossem amantes, mas, se foram, nada em seu comportamento jamais revelou a menor evidência disso.

Durante a década de 1880, a vista de Degas piorou ainda mais. Ele começou, então, a se dedicar a formas de expressão mais compatíveis com as suas deficiências visuais: transformou totalmente sua técnica de pintura, tornando-a menos minuciosa, e passou a utilizar sobretudo o pastel, que pode ser trabalhando com maior rapidez e não exige grande definição de detalhes. Tentou, também, o caminho da escultura, onde o toque determina a obra e, que, por isso mesmo, representava para ele um meio mais fácil de se expressar.

Em 1881, expôs sua primeira escultura, um trabalho de cera representando uma pequena bailarina adolescente. Moldou muitas esculturas no decorrer dos anos seguintes, uma série de 73 bronzes de bailarinas, vendidos por marchands entre 1912 e 1921. Em 1886, Degas expôs no 8º Salão dos Independentes cerca de 15 obras, dentre elas os 10 famosos pastéis da série de nus femininos. Também inciou sua famosa coleção de obras de arte, que incluía telas de Ingres, Delacroix, Coubert, El Grego e Corot.

A partir de 1893, as informações sobre sua vida se tornaram ainda mais escassas. Suas dificuldades financeiras foram, até certo ponto autoinduzidas, já que Degas era tão perfeccionista que muitas vezes deixava de entregar uma encomenda, chegando por vezes, a comprar alguma obra de volta por não considerá-la em condições, ou simplesmente porque achava que precisasse de reparos. Empilhadas em seu estúdio, algumas dessas obras ficariam esquecidas por muitos anos, sendo descobertas só após sua morte.

Degas sempre reagiu com independência e desdém às críticas do Impressionismo. E, após a última exposição, em 1886, raramente mostrava seus trabalhos, evitando qualquer tipo de publicidade ou então, reagindo mal a qualquer referência a ele nos jornais, mesmo que fosse elogiosa. Literalmente, se enfurecia, Mas, ao mesmo tempo, se ressentia muito da falta de dinheiro. Não obstante, sabe-se que em 1912 suas telas atingiriam altos preços num leilão subsequente à expropriação do estúdio que ocupara por 23 anos seguidos, na rua Victor-Massé. Sabe-se, também que Degas partiu para Saint-Valéry-sur-Somme depois de uma crise de depressão provocada pela progressiva e irreversível cegueira. Essa única e prolongada tragédia se tornava ainda mais insuportável devido a seu temperamento: ora irrompia em explosões violentas, ora subitamente mergulhava numa depressão sem fim.

Praticamente sua carreira estacionou quando teve que deixar o apartamento da rua Victor-Massé. Quase cego e com saúde abalada, Degas terminaria seus dias solitário, vagando pelas ruas de Paris ou na companhia de alguns poucos amigos. Morreu em 27 de setembro de 1917, enquanto a Europa, em guerra, se digladiava.

FORMAS MODELADAS PELA COR

Foi dono de uma obra singular, enquanto seus amigos impressionistas procuravam desesperadamente a cor, ele perseguia a linha. Já na metade da sua carreira, sua temática se definiria: retratos de amigos, nus, bailarinas e cantoras, lavadeiras, chapeleiras, jóqueis e cavalos. Além disso, junto com Manet, Degas interessou-se por temas naturalistas, mesmo que recusasse com veemência o culto do campo e a necessidade de se pintar ao ar livre.

Degas interessava-se sobretudo pelo traço: seus desenhos rápidos, precisos, revelam sua rara habilidade e seu sentido de movimento. Para romper com o mobilismo de um quadro, ele inventava enquadramentos descentralizados, elevava a linha do horizonte, invertia a perspectiva ou fixava a cena num espaço cortado arbitrariamente, como se olhasse por um buraco de fechadura ou por uma objetiva fotográfica; também gostava de banhar suas concepções fragmentárias na luz artificial, resplandecente.

Lúcido e irônico, Degas foi um observador cruel do cotidiano: suas célebres bailarinas são criaturas etéreas, transfiguradas pelas luzes fosforescentes do palco; são arabescos em suspensão, embora também sejam como ratinhos bestificados e fatigados pela monotonia dos ensaios, silhuetas em repouso, se espreguiçando ou se preparando para entrar em cena. De fato, Degas não buscava no balé a graça sedutora. Ele se prendia, de preferência, às posições absurdas e aos equilíbrios inverossímeis. “Chamam-se de pintor de bailarinas”, diria ele,”Não compreendem que as bailarinas são para mim apenas o pretexto para pintar lindos tecidos e a execução de movimentos”. Nessa resposta à crítica ele resume os principais objetivos de sua pintura: o significado real não residia apenas no tema, pois, quando pintava uma bailarina não era a dança que o atraía, mas o espetáculo do corpo no espaço e o desafio de transformá-la em arte.

O olhar de Degas se tornava verdadeiramente impiedoso quando se voltava para a mulher em sua toalete. Ele observava longamente, saindo da banheira, dentro de uma bacia, se ensaboando, se enxugando; ele a flagrava exatamente quando ela se acreditava só animal, agachada, quase grotescamente ocupada com seus cuidados íntimos. Marcada por um realismo extremamente inovador, às vezes de inusitado intimismo, influenciou alguns de seus contemporâneos, Toulose-Lautrec em particular, que o próprio Degas defendeu em inicio de carreira. Lautrec alimento nele seu talento para o desenho e, assim como o próprio Degas, lançou um olhar amargo sobre a vida parisiense, imortalizando-a em traços de enorme expressividade.

MARCA REGISTRADA: IMAGENS CORTADAS 

O desenvolvimento da câmara fotográfica exerceu influência nas composições de Degas. Suas imagens são sempre deliberadamente cortadas nas bordas do quadro, como se foto uma foto mal enquadrada. E o sentido de casualidade daí resultante encobre o trabalhoso processo de elaboração de suas obras.

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