Caravaggio

Caravaggio

Michelangelo Merisi, filho de Fermo di Bernardino Merisi, nasceu em 1571, provavelmente em Milão, não muito distante da aldeia de Caravaggio, de onde a família provinha. Anos mais tarde, adotaria o nome de seu local de nascimento. Seu pai, que era mordomo-chefe de Francesco Sforza, Marquês de Caravaggio, morreu em 1577, e o menino, junto com dois irmãos e uma irmã, foi criado pela mãe, Lucia Anatore.

Em 1584, aos 12 anos, o jovem entrou como aprendiz do estúdio do pintor milanês Simone Peterzano. Pouco se sabe sobre esse período de sua vida, apenas que sua mãe morreu em 1590, e que, dois anos mais tarde, os três irmãos dividiram a propriedade da família em partes iguais. Com a herança Caravaggio partiu para Roma. A cidade o atraía, pela corte papal. Ali conviveu com artistas e arquitetos de toda a Itália e do exterior, atraídos pelos ambiciosos projetos papais de reconstrução e embelezamento da cidade.

Caravaggio podia ter vivido vários anos com o dinheiro de sua herança, mas parece que gastou tudo muito rápido e de forma impensada, pois nos primeiros tempos romanos ele teve de lutar contra a fome e a miséria. Para sobreviver fazia trabalhos menores de pintura em série, mas o pagamento irrisório que recebia por seus telas não aliviava sua condição. Com a saúde abalada, chegou a ser internado no Hospital Santa Maria da Consolação, onde pintou quadros para a instituição, que os enviaria depois para Sevilha. Tendo recebido alta, mas ainda debilitado. Caravaggio saiu em busca de novos empregos. Ofereceu-se para trabalhar com Giuseppe Cesari, Cavaleiro d’Arpino. Mas incompatibilizou-se com o estilo de pintura do mecenas e desfez o contrato.

Tempos mais tarde, o artista atraiu a atenção do Cardeal Del Monte, clérigo rico e sofisticado, colecionador de obras de arte, amante da música e patrono oficial da Academia de São Lucas, a escola dos pintores de Roma. Del Monte representava os interesses de Florença na corte papal e residia num dos palácios da família Medici. O cardeal acolheu Caravaggio em sua casa, oferecendo-lhe alojamento, alimentação e uma pensão regular. Em troca, pintou uma série de quadros de jovens efeminados, pois Del Monte divertia-se discretamente com rapazes. Caravaggio, de resto, parecia compartilhar desse gosto, evidenciado nos seus primeiros trabalhos. Até mesmo em alguns retábulos do fim da carreira pode-se encontrar anjos de natureza andrógina. É surpreendente que, numa época em que o homossexualismo era considerado crime, nenhuma suspeita tenha recaído sobre o próprio Caravaggio. Se existisse alguma dúvida sobre sua sexualidade, certamente os inimigos que fez em sua breve existência – e que não foram poucos – teriam explorado de bom grado esse assunto publicamente. O que provocou maledicência foi a reputação duvidosa de sua namorada – Lena, uma prostituta que ele dizia ter utilizado como modelo para retrata a Virgem.

No início da carreira, Caravaggio pintou naturezas-mortas, paisagens e, eventualmente, obras sacras para poucos compradores. Sem dúvida esse não era o caminho para riqueza e fama. Em plena Contra-Reforma, Roma assistia a crescente construção de igrejas, e cada edificação nova exigia a criação de retábulos e a decoração, que constituíram as obras barrocas. Era onde estava o dinheiro e onde se estabelecia a reputação entre o público.

A oportunidade veio em 1599, quando recebeu uma encomenda de duas grandes pinturas para a Capela Contarelli, da Igreja de São Luís dos Franceses. Para Caravaggio era apenas o começo. Outras grandes encomendas surgiram em rápida sucessão. Após alguns anos, a fama do pintor já se difundia por toda Europa.

TEMPERAMENTO VIOLENTO

A partir de 1600, época que coincide com seu primeiro sucesso público, Caravaggio aparece regularmente nos registros policiais de Roma: em novembro daquele ano agrediu um colega com um bastão; em fevereiro do ano seguinte, foi levado a júri sob a acusação de ter ameaçado um soldado com sua espada; em 1603, o pintor Giovanni Baglione lhe moveu uma ação. Foi preso por algum tempo e solto sob a condição de permanecer em casa e não mais ofender Bastione (a quebra do trato o levaria novamente à prisão ou às gales); em abril de 1604 acusam-no de ter agredido o garçom de um restaurante e tê-lo ameaçada com sua espada; mais tarde, no mesmo ano, foi novamente encarcerado por insultar um policial. Os delitos não param por aí: em 1605 prenderam-no por carregar uma espada e  um punhal sem autorização; por ofender uma senhora com sua filha e também por agredir um tabelião numa briga; por fim, sua senhoria o acusou de não pagar o aluguel, além de ter o hábito de atirar pedras pelas janelas.

Talvez não se deva julgar a personalidade de Caravaggio apenas pelos registros criminais e por seu temperamento violento. Afinal, ele foi também sustentado e protegido por um dos mais exigentes patronos de Roma, incluindo Del Monte e o Marquês Giustiniani. E alguns de seus melhores amigos e companheiros de aventuras eram homens refinados e cultos. Giovanni Battista Marino, talvez o poeta mais erudito e intelectualizado da época, teve seu retrato executado por Caravaggio e imortalizou em poema a arte do amigo. E embora as declarações públicas de Caravaggio a respeito de artistas – seus contemporâneos ou antecessores – soassem simplistas e rudes, ele costumava estudar em segredo a arte de Michelangelo, Leonardo, Rafael e dos grandes pintores venezianos. Enfim, não se conhece o suficiente sobre sua vida íntima, interesses e conhecimentos para formar uma imagem concreta de seu caráter, além daquela fornecida pelos registros policiais.

No dia 28 de maio de 1606, o temperamento violento de Caravaggio o levou à tragédia. Por não querer pagar uma aposta de 10 escudos, ele e alguns amigos envolveram-ser numa briga com um certo Ranuccio Tommasoni. Na tragédia, o pintor saiu gravemente ferido e Tommasoni acabou morrendo em virtude dos ferimentos.

FUGA DE ROMA

Caravaggio conseguiu se esconder por três dias, provavelmente no palácio de seu protetor, o Marquês Giustiniani. Depois fugiu de Roma, para onde jamais retornaria. Desconhece-se seu paradeiro pelos cinco meses seguintes. Por volta de 1606 estava em Nápoles, fora da jurisdição papal e em segurança. Em menos de um ano completou três grandes retábulos, esperando ansioso que seus amigos romanos e patronos influentes lhe obtivessem o perdão papal para que pudessem retornar a Roma. Mas a respostas das autoridades custava a chegar, e, em julho de 1607, Caravaggio saiu de Nápoles com destino à ilha de Malta.

Não se sabe se viajou para Malta na esperança de ser feito Cavaleiro de São João, ou se os cavaleiros malteses o convidaram para pintar alguns quadros. O fato é que sua permanência na ilha foi muito produtiva. Além dos retratos, entre outros o do Grão-mestre Alof de Wignacourt, realizou uma obra de grande porte, A Decapitação de São João, o santo padroeiro da Ordem dos Cavaleiros.

Em julho de 1608, foi sagrado Cavaleiro da Ordem da Obediência, em reconhecimento por seu trabalho. Além disso, o Grão-mestre condecorou-o com uma corrente de outro e outras honrarias, além de colocar à sua disposição dois escravos turcos. Mas, incapaz de submeter-se à severa disciplina da Ordem, o temperamental pintor revidou a ofensa que lhe fez um cavaleiro e acabou preso novamente. É provável também que as notícias sobre o rime que cometera em Roma já tivessem se difundido em Malta, complicando sua situação. Ajudado por amigos, conseguiu escapar e fugiu para Sicília Foi destituído de todas as honrarias e excluído da Ordem. Pressentindo a vingança em seu encalço, Caravaggio mudava constantemente de cidade.E esteve em Siracusa, Messina, Palermo e, depois de concluir alguns retábulos, retornou a Nápoles, em 1609.

A fama lhe propiciava vultuosas somas em cada obra vendida. No entanto, era ainda um fugitivo. E agora não apenas a justiça papal, mas também dos cavaleiros de Malta. Em outubro de 1609, chegaram de Roma alguns boatos de que havia sido morto ou gravemente ferido em Nápoles. De acordo com alguns relatos, sicários do cavaleiro maltês ofendido o descobriram e o feriram seriamente no rosto, deixando-o desfigurado.

EM BUSCA DA ANISTIA

A notícia dessa agressão chegou a Roma, fazendo com que e intensificassem os esforços dos amigos para obter o perdão do papa. Tinha então o apoio do Cardeal Ferdinando Gonzaga, que compraria sua tela A Morte da Virgem, obra rejeitada pelo conservadorismo dos padres de Santa Maria della Scala. Diante da notícia de que o papa Paulo V estaria prestes a conceder-lhe a graça, Caravaggio partiu para Roma sem esperar resposta sobre sua anistia.

No verão de 1610, deixou Nápoles repentinamente. Mas ainda sem a plena certeza da sorte que o esperava, desembarcou em Porto Ércole, cidade situada cerca de 13 quilômetros ao norte de Roma e que à época era um protetorado espanhol. Esperava retornar a Roma em breve, mas não podia pisar nos Estados Pontifícios sem o perdão papal. Estava ansioso para reencontrar os amigos e os patronos, o que não iria ocorrer.

Baglione, velho inimigo de Caravaggio, deixou à posteridade o relato mais vívido dos últimos dias do artista. Tendo desembarcado em Porte Ércole, Caravaggio “foi preso por engano e posto na prisão por dois dias. Quando saiu, seu barco não se encontrava mais onde o deixara. Enfurecido e em desespero, começou a andar pela praia sob o sol de verão, tentando encontrar algum indício de sua embarcação e de seus bens. Finalmente, desmaiou em algum lugar e foi colocado numa cama, com febre muito forte. E ai, sem ajuda de Deus ou de amigos morreu depois de alguns dias, tão miseravelmente quanto viveu”. Era 18 de julho de 1610, e Caravaggio não havia ainda completado 40 anos. O perdão há tanto tempo esperado foi enfim concedido. Mas já era tarde.

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