Sandro Botticelli

Sandro Botticelli

Alessandro di Mariano di Vanni Filipepi nasceu em Florença, provavelmente nos primeiros meses de 1445, pois em março de 1447 seu pai, o curtidor de couros Mariano Filipepi, declarou às autoridades locais que o menino tinha 2 anos. Mais tarde, em fevereiro de 1458, fez nova declaração pública, informando que tinha quatro filhos: Giovani, de 37 anos; Antonio, de 28; Simone, de 14 e Alessandro, de 13.

Não se sabe exatamente de onde provém o nome Botticelli, que Sandro (diminutivo de Alessandro) tornou célebre. Segundo uma versão, Giovanni era muito gordo e por isso tinha o apelido de Botticello (pipazinha), que acabou se estendendo aos irmãos. Outra explicação é que o nome seria uma corruptela de battigello (bate-folhas), artesão encarregado de laminar ouro, prata e outros metais preciosos para uso em ourivesaria. Antonio era battigello e, ao que parece, Sandro também aprendeu a função. Seja qual for a razão do nome, foi adotado por volta de 1470 e, interpretado como sobrenome, passou a ser grafado com -i, desinência indicativa do masculino plural em italiano.

A família vivia modestamente no bairro florentino de Ognissanti, onde morava a maioria dos trabalhadores responsáveis pela manutenção da rica indústria têxtil local. Mesmo depois de obter fortuna e sucesso, Sandro continuou fiel a seu bairro, e até o fim da vida habitou a casa que havia sido de seus pais.

O rumo da fama

Pouco se sabe sobre a infância de Botticelli. Na declaração pública que fez em 1458 Mariano Filipepi informou que o caçula aprendia a ler e era doente. Por essa época, provavelmente, o garoto se iniciava na profissão de ourives, mas, se a suposição e verdadeira, logo decidiu trocar os metais pelas tintas e por volta de 1461 ou 1462 começou a estudar pintura. É possível que tenha sido discípulo de Filippo Lippi, mestre florentino que desde 1452 trabalhava num ciclo de afrescos na Catedral do Prato, cidade próxima a Florença.

Lippi era famoso não só por sua arte, essencialmente religiosa, mas também por seus escândalos. Em 1450, fora levado ao tribunal sob acusação de fraude; seis ou sete anos depois, raptou a freira Lucrécia Buti que em 1457 ou 1458 lhe deu um filho, Filippino, mais tarde discípulo de Botticelli.

Após a morte do seu provável mestre, em 1469, Botticelli estabeleceu-se como pintor independente, instalando sua oficina na casa onde morava. O artista e historiador de arte Giorgio Vasari conta que ao lado funcionava uma tecelagem onde oito enormes teares trabalhavam sem cessar fazendo um barulho ensurdecedor que impedia a concentração do artista. Depois de inutilmente implorar ao vizinho que atenuasse o ruído, Botticelli pendurou na parede externa uma pedra gigantesca, que ameaçava cair a qualquer momento sobre a casa do tecelão. Foi o quanto bastou para poder pintar em paz.

Em 1470 recebeu sua primeira encomenda documentada. Tratava-se de elaborar uma figura da Fortaleza para compor uma série de sete virtudes que adornaria a Câmara de Conselho da Corporação dos Mercadores. Piero del Pollaiolo – que, juntamente com o irmão, Antonio, influenciou Botticelli nesse período – havia sido encarregado de criar toda a série e chegara a completar algumas figuras. Entretanto, por intervenção de um amigo governante Lourenço de Medici, “o Magnífico”, a Fortaleza passou para as mãos de Botticelli, abrindo-lhe caminho para outras encomendas importantes.

Cerca de três anos mais tarde, a fama de Botticelli havia crescido tanto que ultrapassara os limites de Florença. Em 1473, ele foi convidado a pintar um afresco na Catedral de Pisa; o projeto não chegou a concretizar-se, mas, dada sua envergadura, contribuiu para aumentar o renome do artista. Por volta de 1475, o banqueiro Zanobi del Lama encomendou-lhe uma Adoração dos Magos para adornar a Igreja de Santa Maria Novella. Na mesma época tornava-se cliente de Sandro o rico Lorenzo di Pierfrancesco de Medici, primo de Lourenço, “o Magnífico”.

Embora tivesse estabelecido a paz na cidade e se empenhasse em promover as artes e as ciências, “o Magnífico” não governava sem a oposição de poderosas famílias – como os Pazzi – que gostariam de ocupar o seu lugar. Em 26 de abril de 1478, durante a celebração de uma missa na catedral, ele e seu irmão Giuliano foram vítimas de um atentado promovido pelos Pazzi com o apoio do Papa Sisto IV. Giuliano morreu, mas Lozenzo escapou apenas ferido e tratou de punir os conspiradores de maneira exemplar. Para manter a execução viva na memória de todos prevenindo contra eventuais atentados futuros, ordenou a Botticelli que pintasse a cena de enforcamento (destruída após a morte do Magnífico).

Malograda a conspiração, que só fez fortalecer o prestígio de Lourenço junto ao povo, o Papa Sisto IV resolveu restabelecer boas relações com os Medici e convidou artistas de Florença a participarem da decoração da recém-construída Capela Sistina, o Vaticano. Botticelli era um desses artistas; no verão de 1481 chegou a Roma, onde permaneceu até o ano seguinte, executando três afrescos pelos quais foi muito bem pago.

Sem rival em Florença

Na década de 1480, o duque de Milão pediu uma relação dos mais prestigiados artistas de Florença. O nome de Botticelli encabeçava a lista. com efeito, nessa época praticamente não havia na cidade quem pudesse se rivalizar com ele: Leonardo da Vinci havia partido para Milão; os irmãos Piero e Antonio del Pollaiolo trabalhavam e Roma; Andrea del Verrocchio fora para Veneza executar o célebre monumento equestre a Bartolomeo Colleone.

Botticelli estava no auge da fama e no esplendor de seu talento. Choviam-lhe encomendas passa pintar cenas religiosas e profanas, retratos, estandartes, e ele executava-as sem cessar, ajudado por vários assistentes.

Caminho para o esquecimento

Na década seguinte a estrela de Botticelli começou a declinar, junto com o prestígio dos Medici. Em 1491, o dominicano Girolamo Savonarola, que se julgava escolhido por Deus para regenerar o povo e a Igreja, tornou-se prior do Convento de San Marco, de onde disparava sermões contra Lourenço, “o Magnífico”, e pressentia a destruição da cidade por invasores franceses. Como grande parte dos florentinos esclarecidos, de início Botticelli não lhe deu ouvidos, mas o desenrolar dos acontecimentos acabou convencendo-o de que o dominicano estava certo.

Em 1492 “o Magnífico” morreu e seu filho Piero assumiu o governo. Dois anos depois, Carlos VIII, rei da França, invadiu a península italiana e ameaçou tomar Florença. Amedrontado, Piero cedeu-lhe o porto de Pisa e outros pontos vitais para a cidade. A população encheu-se de ódio e não só o expulsou como tratou de manter todos os Medici afastados do poder. Imediatamente, Savanarola proclamou a verdade de suas profecias e foi em pessoa negociar com Carlos VIII uma paz mais honrosa. Ao retornar vitorioso, foi saldado como o salvador de Florença e assumiu o governo com poderes absolutos, impondo à cidade um estilo de vida quase monástico.

A princípio, a população acatou-lhe todas as decisões, mas pouco a pouco dividiu-se em dois partidos: os piagnoni (chorões), que o apoiavam irrestritamente – e entre os quais talvez se incluísse Boticelli -, e os arrabbiati (raivosos), que queriam depô-lo. Lorenzo de Pierfrancesco parece que se alinhava entre estes últimos, pois precisou deixar Florença por motivos políticos.

O Papa Alexandre VI, um Bórgia, era alvo constante dos sermões de Savanarola e um dia chamou-o a Roma para retratar-se. O dominicano simplesmente ignorou a convocação, o que lhe retirou o apoio de bom número de piagnoni fiéis ao pontífice. Pouco depois Savanarola tomou conhecimento de que se armava uma conspiração para reconduzir os Medici ao poder; tentando recuperar os adeptos perdidos, declarou-se pronto a submeter-se às chamas da fogueira para provar que era um enviado de Deus. Um frade da ordem franciscana – opositora de Savanarola – ofereceu-se para passar pela mesma prova, e o dominicano esquivou-se, golpeando de morte sua já minguada popularidade. Excomungado pelo papa, apoiado por poucos, foi facilmente preso pelo Conselho e, sob acusação de falso profeta, acabou queimado vivo em 1498.

Todos esses episódios violentos deixaram marcas profundas na alma e na arte de Botticelli, que passou a dedicar-se à meditação, vivendo quase recluso, e a pintar exclusivamente temas religiosos, num estilo cada vez mais pessoal e sombrio. As encomendas escasseavam. Em 1502, Boticcelli foi acusado de homossexualismo. A acusação foi descartada por falta de provas, mas sem dúvida sobre sua procedência permaneceu para sempre. Botticelli não se casou, porém não há notícias de nenhum envolvimento amoroso com outros homens.

Em 1504, Florença prestou-lhe ainda uma pequena homenagem, convidando-o a participar da comissão que decidira o local onde seria instalada a escultura Davi, de Michelangelo. Era pouco, no entanto, para tirar o velho mestre da obscuridade em que havia mergulhado.

Na verdade, não fora a reclusão nem a acusação de homossexualismo que afastaram os clientes, e sim razões de ordem estética. Seu estilo aproximava-se cada vez mais do arcaico medieval, enquanto o gosto dos mecenas evoluía na direção da arte mais poderosa e inovadora de Leonardo e Michelangelo. Totalmente ofuscado por eles, Sandro Botticeli morreu solitário e esquecido, em maio de 1510, e no esquecimento permaneceu seu obra até o século 19, quando os artistas ingleses da Irmandade Pré-Rafaelita nela encontraram um espírito afim e finalmente lhe fizeram justiça.

 

 

 

 

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