Diego Velázquez

Diego Velázquez

Diego Rodríguez de Silva y Velázquez nasceu em Sevilha, nos primeiros dias de junho de 1599. Era primogênito dos sete filhos de Juan Rodríguez de Silva e de sua esposa Jerónima (nascida Velázquez). Havia sangue nobre na família, e os pais levavam uma vida confortável, mas não opulenta. Diego, como de hábito na Espanha, tomou o sobrenome da mãe e se tornou um dos maiores pintores do barroco espanhol.

À época a mais próspera cidade da Espanha,  Sevilha possuía o principal porto de comércio com as Américas, fazendo da Espanha a nação mais rica do mundo e impregnando-se de uma atmosfera cosmopolita. Sevilha era também grande centro cultural e, quando o jovem Diego demonstrou especial interesse pela pintura, seus pais puderam escolher um professor entre os vários pintores talentosos que ali viviam.

UM MESTRE COMPLACENTE

A partir de 1º. de dezembro de 1610, e por um período de seis anos, Velázquez iniciou estudos com Pacheco. Embora pintor medíocre, Pacheco parecia uma escolha ideal. Muito culto, era poeta além de pintor, em sua casa se reuniam artistas e intelectuais. E, nesse ambiente estimulante, o próprio Velázquez se transformaria num homem com amplos interesses culturais, como mostra o inventário de sua biblioteca levantado após sua morte. Como professor, Pacheco era complacente, receptivo a novas ideias e generoso o bastante em espírito para reconhecer abertamente que Velázquez pintava melhor que ele próprio.

Em 14 de março de 1617, logo após ter concluído seu aprendizado, Velázquez submeteu-se a exames, sendo aprovado como mestre-pintor de ícones religiosos, que era o mais alto posto atingido por um artista. Pouco mais de um ano depois, em 23 de abril de 1618, Velázquez casou-se com Juana, filha de Pacheco. A noiva ainda não completara 16 anos e o noivo não tinha chegado aos 19. Não existe nenhum retrato conhecido de Juana feito por Velázquez, mas é bem provável que ela tenha servido como modelo em algumas de suas pinturas, como A Imaculada. O casal teve duas filhas, Francisca, nascida em 1619, e Ignácia, que nasceu em 1621 e morreu na infância.

Velázquez fez rapidamente sua reputação em Sevilha com obras como a Adoração dos Magos, que já revelavam sua maestria. Em abril de 1622 visitou Madri, em parte para ver o Palácio Escorial com seus magníficos tesouros artísticos, mas também porque concebera o audacioso plano de pintar um retrato de novo rei, Felipe IV, coroado no ano anterior. Não obteve êxito em seu segundo intento, mas fez um retrato do grande poeta Luís de Góngora antes de retornar  Sevilha. Seu trabalho trabalho causou impacto em Madri e, em 1623, foi chamado de volta à capital pelo Conde-Duque de Olivares, primeiro-ministro do rei e, como Velázquez, um sevilhano. Incumbido de pintar um retrato do monarca, o artista obteve tanto sucesso que o convidaram para assumir um dos cargos de pintor da corte. Além disso, o rei, muito satisfeito, decidiu que, dali em diante, ninguém, com exceção de Velázquez, faria seus retratos. Aos 24 anos, ele se tornava como que de repente, o pintor de maior prestígio da Espanha.

FAVOR REAL

A corte espanhola mantinha rígidos padrões de etiqueta. Mas, Velázquez, criou uma impressão tão positiva no jovem rei – este era 6 anos mais jovem que o pintor – que ambos desfrutaram de um relacionamento extraordinariamente caloroso. Tal favoritismo despertou inveja em outros artistas da corte, que acusaram Velázquez de ser capaz apenas de pintar cabeças. Para responder à difamação, Felipe ordenou a Velázquez e a três outros artistas que pintassem um quadro sobre o tema da expulsão dos mouros da Espanha, uma grande composição multifigurada. Velázquez venceu a competição, mas, lamentavelmente, a tela – seu primeiro trabalho de motivo histórico – acabou destruída num incêndio, em 1734.

Para acirrar os ânimos, Felipe, a partir de 1627, nomeou Velázquez para uma sucessão de postos na corte, que o artista acumulava com as funções de pintor. Essas nomeações viriam beneficiar a posição social de Velázquez, em detrimento, porém, de sua arte. Porque, embora suas posições implicassem grande títulos, como o de Supervisor dos Trabalhos do Palácio, esse tipo de trabalho o obrigava a despender tempo em assuntos burocráticos triviais. Contudo, desincumbiu-se de suas funções com eficiência, pois parece que seu temperamento se adequava a elas.

Em 1628-29 Rubens, o grande pintor flamengo, visitou a Espanha em missão diplomática e entrou em contato com Velázquez. Era o início de uma sólida amizade entre ambos. Juntos foram ao Escorial e voltaram deslumbrados. A partir de então, a obra de Velázquez tomou novos e decisivos rumos. No Escorial, teve oportunidade de conhecer e admirar notáveis trabalhos do Renascimento italiano, que o levaram a descobrir o humanismo e a mitologia. Além disso, essas obras proporcionaram-lhe um novo estímulo, reacendendo nele o desejo sempre acalentado de ir à Itália.

Velázquez recebeu permissão oficial do rei para viajar à Itália em 26 de junho de 1629. E em agosto embarcava de Barcelona para Gênova. Em sua ausência, continuaria recebendo o mesmo salário. De Gênova, Velázquez partiu para Veneza, passando depois por Ferrara e Cento, a caminho de Roma, onde permaneceu cerca de um ano. SEgiu, então, para Nápoles, à época possessão espanhola. O maior pintor que ali vivia era outro espanhol, Jusepe de Ribera, e é provável que Velázquez o tenha conhecido. Em janeiro de 1631, estava de volta a Madri. Muitas de suas obras sabidamente criadas por Velázquez na Itália desapareceram, mas duas telas do período subsistiram: A Túnica de José e A Forja de Vulcano. Ambas evidenciam um aprimoramento no domínio da composição figurativa sob influência da arte clássica e dos mestres renascentistas.

FESTIVAL DE PINTURAS

As duas décadas seguintes se caracterizaram como o período mais fértil da carreira de Velázquez. Pintou inúmeros retratos do rei e da família real (Felipe, aliás, não permitiu que ninguém que o retratasse enquanto Velázquez estive fora), e também ma empolgante série de pinturas equestres. E foi nessa época que realizou o melhor de sua arte sacra e criou também o único nu feminino remanescente, além de uma das maiores obras-primas da história da pintura: A Rendição de Breda, tela que mostra a capitulação da cidade holandesa diante dos espanhóis em 1625. A incomparável séria de retratos de bobos a corte também data desse período. Sob o pincel de Velázquez essas figuras adquiriram tocante dignidade. Sua vida caminhava serena, pontuada por alguns poucos acontecimentos mais marcantes, como o casamento, em 1633, de sua filha Francisca com o aluno Juan Bautista Martínez del Mazo, ou sua promoção para algum cargo real.

É possível que Velázquez tenha feito uma curta viagem à Itália em 1636: a península italiana exercia forte atração sobre ele e, em novembro de 1648, partiu para nova e extensa visita. Ia agora em missão especial, poi o rei o incumbira de adquirir obras de arte em Roma. Tal como em sua primeira viagem 20 anos antes, Velázquez visitou diversas cidades. Sua reputação o precedera e honraram-no com o título de membro da Academia de São Lucas.

Em 1650, o rei Felipe enviou uma série de cartas que instigavam Velázquez a retornar a Madri. Mas o artista pode ter tido outros motivos, além dos relacionados com a arte, para prolongar sua estadia na Itália. Isso é o que se  deduz a partir de uma surpreendente descoberta documental publicada em 1983. Os documentos revelam que uma viúva, de nome Marta, deu à lu um filho ilegítimo de Velázquez. A criança chamada de Antônio foi descrita como um bebê de colo em outubro de 1652. Como Velázquez estava de volta a Madri em junho de 1651, é possível que jamais tenha conhecido o filho. Pediu permissão para retornar à Itália em 1657, mas sua proposta foi recusada. É tentador especular se Marta e Antônio ocupavam a meste de Velázquez tanto quant às glórias da arte italiana. Mas tudo não passa de conjecturas e nada se sabe acerca do destino da mãe ou da criança.

Esse segredo parece não ter perturbado sua pacata vida em Madri. Sofreu um único golpe em 1654, quando sua filha Francisca faleceu, mas continuou a se dedicar à pintura e a seus deveres com a corte com sua peculiar serenidade.

Dois anos antes havia sido nomeado para o mais honrado de todos os cargos: Tesoureiro Real. Queria, porém, a glória máxima de um título de nobreza,e o processo quase interminável para obtê-lo arrastou-se ao longo dos últimos anos de sua vida. Felipe IV teve que conseguir permissão especial do papa Alexandre VII antes de poder sagrar Velázquez como Cavaleiro da Ordem de Santiago, em 28 de novembro de 1659. O autorretrato do artista no quadro As Meninas mostra-o com a cruz da ordem no peito.

UMA MISSÃO CANSATIVA

Em 8 de abril de 1660, Velázquez deixa Madri rumo à ilha dos Faisões, no rio Bidassoa (fronteira entre Espanha e França), para os preparativos do encontro de Felipe IV com Luís XIV da França, que queria casar-se com a filho do monarca espanhol, Infanta Maria Theresa. Retorna a Madri em 26 de junho, exaurido pelo trabalho e pela viagem. Em 31 de julho cai de cama em seus aposentos no palácio real, queixando-se de febre. Uma semana mais tarde, vem a falecer. Era agosto de 1660. O rei lhe proporcionou magnífico funeral, sendo sepultado na Igreja de San Juan Bautista, destruída em 1811, sem deixar algum vestígio dos restos mortais do artista. Sua condoída viúva segue-o menos de uma semana depois. A Espanha, após haver conquistado o mundo, precipitava-se lentamente na ruína. Os olhos de Velázquez, inebriados de luz, foram intérpretes fiéis dessa pompa decadente.

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