Eugène Delacroix

Eugène Delacroix

Ferdinand Victor Eugène Delacroix nasceu no subúrbio parisiense de Charenton-Saint-Maurice em 26 de abril de 1798. Sua mãe, Victoire, provinha de uma ilustre família de desenhistas de móveis da casa real francesa. E seu pai, Charles Delacroix, era membro do governo revolucionário, tendo votado pela execução de Luís XVI em 1793.

Charles foi também ministro das Relações Exteriores, mas, em 1797, foi rebaixado de posto, pois o nomearam embaixador da República francesa na Holanda. Estava portanto no exterior quando Eugène nasceu. Tanto é que estudos recentes revelam dúvidas acerca da verdadeira paternidade da criança.

Apesar do próprio Delacroix não ter, aparentemente, tomado conhecimento, circulavam rumores de que seu pai verdadeiro era uma figura muito mais poderosa. Pois Charles foi substituído no Ministério das Relações Exteriores por Talleyrand, amigo da família e um dos mais brilhantes estadistas de seu tempo. Tudo indica que Talleyrand resolvera conquistar não apenas o cargo de Charles Delacroix, mas também, temporariamente, sua mulher.

Após retornar da Holanda, Charles foi nomeado prefeito do Departamento de Gironda, e a família se transferiu para Bordeaux. A cidade era tranquila, se comparada a Paris, mas a infância de Eugène não foi nada monótona. Ao que se sabe, aos 5 anos, já tinha quase se enforcado, queimado, afogado, envenenado e asfixiado. Quase enforcado ao prender a cabeça nas rédeas de um cavalo, que o arrastou; queimado, quando ateou fogo ao cortinado que cobria sua cama; afogado, quando sua ama, acidentalmente, deixou-o cair nas águas do porto de Bordeaux; envenenado, pela inadvertida ingestão de acetato de cobre; e asfixiado ao engasgar-se com uma uva.

A vida escolar em Bordeaux já era um pouco menos excitante. Delacroix revelara aptidão para a música, e o organista da cidade, que conhecera Mozart, encorajou-0 a estudar violino. Mas em 1805, quando Eugène tinha 7 anos, o pai morreu, e, alguns meses mais tarde, a família retornou para Paris. Eugène entrou para o Liceu Imperial, onde teve um bom desempenho, embora sem qualquer brilhantismo, demonstrando entusiasmo pela literatura. Passava as férias na Normandia, na magnífica propriedade de seus primos. Era uma mansão anexa a uma antiga abadia gótica, cujas pitorescas ruínas causavam forte impressão no espírito do menino. Começou a desenhar, no que foi encorajado por seu tio Henri Riesener, também ele pintor de talento. Juntos, faziam visitas ocasionais ao estúdio de Pierre-Narcisse Guérin, um proeminente pintor acadêmico e professor de renome.

Em 1814 morreu a mãe de Delacroix, deixando-o inconsolável. O jovem Eugène foi morar, então, com sua irmã, Henriette. Mas por pouco tempo, pois ainda nesse ano ele envolveria a família em alguns processos legais desastrosamente dispendiosos, acabando por levar todos à falência. Um ano depois, com a determinação que seria uma de suas características mais marcantes, Eugène inscreveu-se como aluno no estúdio de Guerín.

Aprendizado clássico

Em 1816, Delacroix, ingressou na Escola de Belas-Artes, então dominada pelos pintores neoclássicos, partidários de um programa de ensino rigidamente formalista, que privilegiava o estudo de modelos em gesso de esculturas gregas e romanas e desenhos do natural com modelos nus. O desenho meticuloso e os temas edificantes da História Antiga e da mitologia estavam na ordem do dia.

Um dos alunos era, no entanto, um jovem chamado Théodore Géricault, que estava interessado em desenvolver uma forma de expressão absolutamente pessoal. E, 1818 Delacroix observou o trabalho de Géricault, que pintava sua imensa tela retratando os sobreviventes de um naufrágio: A Barca da Medusa. Ficou tão entusiasmado que, ao deixar o estúdio de Géricault, começou a “correr como um louco”, sem parar, até chegar em casa.

Os resultados desse encontro puderam ser apreciados em 1822, quando Delacroix completou sua primeira grande tela e a exibiu no Salão oficial. Na quela época, o sucesso nessa mostra pública era fundamental para a carreira de um jovem artista, e Delacroix se lançou nesse empreendimento com todo o vigor, produzindo uma tela de grandes proporções, com um tema nada convencional: A Barca de Dante, inspirada no Inferno da Divina Comédia. Abandonava, assim, os tradicionais mitos e heróis gregos. Foi a sensação. O Barão Gros, um dos pintores prediletos de Napoleão, emoldurou à própria custa o quadro, que mais tarde, seria adquirido pelo Estado e exposto nas galerias do Palácio de Luxemburgo.

Delacroix saiu da Escola de Belas-Artes em absoluto triunfo: 24 anos de idade, fervilhando de ambição e confiança no próprio talento. Começou a escrever um diário, num esforço consciente de examinar suas ideias, motivações e vivências. Envolveu-se nos inflamados debates artísticos da época, penetrou no círculo dos escritores do Romantismo, que se rebelavam contra a tradição acadêmica e normativa, buscando a verdade em suas próprias respostas emocionais em face da realidade.

A segunda grande obra de Delacroix a participar do Salão – Os Massacres de Quios – reflete essa preocupação e inaugura a violenta disputa entre românticos e discípulos da escola neoclássica. Apesar das duras críticas, o artista manteve-se alheio à opinião pública e fiel à inspiração que o levara a retratar um episódio sangrento de independência da Grécia. Gros voltou-se então contra seu protegido, qualificando o trabalho como “o massacre da pintura”. Mas Delacroix também tinha defensores e sua importância para a nova geração de artistas era agora incontestável.

Nos anos seguintes, o Romantismo estava em pleno florescimento, e Delacroix foi reconhecido como o principal pintor do movimento, apesar da sua recusa constante em aceitar o papel de líder de qualquer escola. Apaixonado por história, teatro, música e literatura, entregou-se à efervescência artística e social, lendo diversos autores românticos e partilhando do entusiasmo pelas apresentações do Hamlet de Shakespeare que agitaram Paris em 1827. Nos círculos aristocráticos era tido como um homem elegante, extremamente culto e espirituoso, porém, altivo. Mas tinha uma perturbadora natureza dupla. Por detrás daquela fachada impecável, havia um temperamento violento, uma alma selvagem.

O espírito do Romantismo

Em 1827 Delacroix expôs uma terceira obra importante no Salão oficial: A Morte de Sardanapalo. Inspirado num poema de Byron, o quadro expressa uma violência e um erotismo Foi a ruptura definitiva entre a crítica conservadora e o artista. Os mais reacionários ficaram horrorizados e tentaram persuadir o jovem pintor a se agarrar ao seu talento sem desperdiçá-lo com tais excessos. Até mesmo Delacroix teria se chocado pelo que a tela revelava de sua própria sensualidade reprimida. O artista tinha muito medo de perder o autocontrole e liberar seus impulsos mais íntimos.

Talvez Delacroix estivesse por demais seduzido por suas próprias experiências sensuais. Em sua juventude viveu uma série de envolvimentos amorosos, os mais marcantes com Elisabeth Salter, uma jovem inglesa, criada de sua irmã, e com sua prima Joséphine de Forget – ligação que durou trinta anos. Com o passar do tempo, no entanto, seus relacionamentos com mulheres foram adquirindo o caráter de franca amizade, destituída de sexo Aos poucos, foi-se tornando mais solitário e mais preocupado com o trabalho.

A saúde tornou-se um sério problema. Desde 1820 vinha sendo acometido por uma febre tão intensa que o obrigava a ficar de cama por vários dias; e por toda a vida sofreu ataques de laringite que se tornavam cada vez mais preocupantes, deixando-o debilitado e apático. Apesar de toda sua energia e vigor, Delacroix era um homem frágil. A intensa dedicação ao trabalho tinha que ser compensada por períodos de descanso.

No Salão de 1831 expôs a tela A Liberdade Guiando o Povo. Pintou-a cheia de entusiasmo para glorificar a democracia e exaltar a revolução do ano anterior, que conduziu Luís Filipe ao poder. Foi um sucesso absoluto, que confirmou sua superioridade sobre os pintores que se opunham às insípidas produções da Escola de Belas-Artes e ao rígido classicismo defendido por seu rival Ingres, à época o único verdadeiro expoente da pintura “oficial”. A esse panorama somou-se um extraordinário período de bem-aventurança na vida de Delacroix, que se acabaria por determinar novos rumos à sua arte. Por influência de amigos, foi escolhido para acompanhar o Conde Charles de Mornay numa visita ao sultão do Marrocos.

Em janeiro de 1832 a comitiva partiu para Tânger e Meknes, passando também pela Espanha e Argélia. Depois de anos compartilhando a devoção dos românticos  ao orientalismo. Delacroix ficou maravilhado com o que viu. A brilhante luminosidade e a riqueza de cores da África deixaram-no extasiado. Presenciou cenas que o s românticos apenas podiam evocar pela imaginação: cavalos de batalha, bravos e nobres guerreiros, mulheres enclausuradas em haréns e religiosos muçulmanos circulando pelas ruas. Ficou tocado, mais ainda, pela simplicidade e dignidade do povo islâmico, cujo heroísmo comparou ao dos gregos. As fortes recordações e as centenas de esboços e anotações forneceram-lhe inspiração para o resto de seus dias.

Encargos do governo

Ao retornar para à França, o governo começou a encomendar painéis monumentais a Delacroix. Era o reconhecimento oficial. Embora continuasse a pintar telas de cavalete com crescente desenvoltura e liberdade, os grande painéis decorativos passaram a absorver a maior parte de seu tempo e de suas energias. Inicialmente, entre 1833 e 1837, decorou o Salão do Rei do Palácio de Bourbon. Depois, durante nove anos, dedicou-se à biblioteca do Palácio do Luxemburgo (1840-47).

De 1850 a 1851 trabalhou na Galeria de Apolo no Museu do Louvre. Vieram então os murais do Salão da Paz na Prefeitura de Paris (destruídos durante os conflitos da Comuna, em 1871) e, finalmente, de 1849 a 1861, o trabalho na Capela dos Santos Anjos da Igreja de Saint-Sulpice.

Uma guardiã ciumenta

Ao se aproximar da meia-idade, eram cada vez mais raras duas aparições em público. O trabalho absorvia todo o seu tempo. Sua fiel governanta, uma camponesa bretã chamada Jenny Le Guillou, guardava-0 com ciúmes numa reclusão cada vez mais acentuada. A partir de 1844, Delacroix alugou uma casa em Champrosay, nos bosques próximos a Fontainebleau, para se recuperar da doença e do cansaço resultantes do trabalho. Dali se mudou para seu estúdio em Paris, na rua Notre-Dame-de-Lorette.

Em 1855, quando tinha 57 anos, uma retrospectiva de sua obra alcançou notável êxito. Delacroix foi premiado com a Grande Medalha de Honra e a comenda da Legião de Honra. E, em 1857, foi eleito membro da Academia de Belas-Artes. Mas, em 1959, ao participar pela última vez do Salão oficial, as telas que enviou foram injustamente atacadas pela crítica. Desgostoso, Delacroix decidiu não mais participar da mostra.

Por essa época, o pintor, então com 61 anos, morava num apartamento em Paris, apesar de ainda passar boa parte do tempo no campo. Nos raros períodos em que gozou de boa saúde, o artista completou os painéis da Igreja de Saint-Sulpice. Retirou-se amargo e desapontado para Champrosay, quase aniquilado pela indiferença. Sua existência, porém, ainda se prolongaria até os 65 anos de idade. A morte chegou em 13 de agosto de 1863, no apartamento de Paris, após uma violenta crise da crônica laringite.

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