As Vaidades da Vida Humana, Harmen Steenwyck

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As Vaidades da Vida Humana, Harmen Steenwyck

Este intrigante quadro de Steenwyck é um belo exemplo de um tipo de natureza-morta conhecida como Vanitas. É repleto de referências à morte e ao vazio da vida, e quanto mais o estudamos, mais ele revela ser um sermão visual baseado nos ensinamentos do Livro do Eclesiastes, no Velho Testamento. Em latim, vanitas significa vaidade, no sentido de algo vão, sem valor, e não no significado moderno de convencimento.

As naturezas-mortas eram muito admiradas e colecionadas na Holanda do século 17, assim como as paisagens e a pintura de interiores.

Os holandeses eram uma sociedade temente a Deus, com altos padrões morais calvinistas e uma ética do trabalho; estavam na linha de frente dos progressos científicos, com particular interesse pela ótica e pelo uso de lentes e microscópios para a observação minuciosa do mundo natural; também tinham paixão por colecionar obras de arte e objetos curiosos.

A incidência da luz cuidadosamente observada e calculada de modo a equilibrar a pilha de objetos à direita. Ela ilumina o objeto central do Vanitas – o crânio humano, ele lembra nossa condição de mortais. A luz é um símbolo cristão do eterno e do divino.

A concha é um símbolo da riqueza mundana – no século 17, devia ser um objeto raro e valioso. Mas também as riquezas são uma vaidade: “Assim como saiu do ventre da mãe, nu retornará, indo-se como veio; e nada levará do seu trabalho” (Eclesiastes 5:15).

Além de ser um símbolo da riqueza, a concha, que sem duvida está vazia, é também um lembrete direto da mortalidade humana. Para nós, uma concha vazia tão exótica é uma curiosidade fascinante, mas não podemos afirmar que ela esteja em nosso poder permanentemente, assim como a forma de vida mais elementar que antes a habitava, também se foi. “Pois o que sucede aos filhos dos homens, o mesmo também sucede às bestas… Como morre um, assim morre o outro” (Eclesiastes 3:19)

O cronômetro, um relógio em miniatura, não era muito preciso, mas mesmo assim era uma posse valiosa. Ele também nos lembra que nosso tempo é limitado: “Para todas as coisas há um tempo” (Eclesiastes 3:1).

A espada é um símbolo do poder mundano e indica que mesmo a força das armas não pode derrotar a morte. E por mais poderoso que seja o homem, “Aquele que é mais alto do que o mais altos está olhando” (Eclesiastes 5:8).

No centro da natureza-morta há um crânio humano, um memento mori (em latim, lembra-te de que deves morrer). Assim como em Os Embaixadores, de Holbein, sua presença é a única referência não velada à inevitabilidade da morte.

Os livros significam a aquisição de conhecimento e erudição, uma das características que distinguem a existência humana. Mas mesmo aqui há o perigo da vaidade: “Pois em muito saber há muito sofrer, e o que aumenta o conhecimento, aumenta sua dor” (Eclesiastes 1:18).

Os instrumentos musicais do quadro representam o amor; a música sempre foi parte integrante do namoro e do encontro amoroso. Tradicionalmente, a charamela (uma forma medieval de oboé) e outros tipos de flauta representam a forma masculina, enquanto a forma arredondada do alaúde e de outros instrumentos de corda representa o corpo feminino. Assim representam os prazeres sensuais e eróticos da vida que a morte leva embora.

O jarro à direita foi pintado sobre a imagem do busto de um imperador romano. O rosto do imperador teria sido uma referência aos poderes e glórias terrenas que a morte dá cabo, mas talvez o artista tenha decidido não incluir a imagem de nenhum personagem, o que viria atenuar a presença do crânio como símbolo de todo homem. A jarra de vinho pode ser uma alusão aos perigos da bebida, mencionados no Eclesiastes 10:17.

A lâmpada acaba de apagar-se, pois mal conseguimos ver um fio de fumaça. Tal como o cronômetro, é um símbolo da passagem do tempo e da fragilidade da existência humana.

As Vaidades da Vida Humana, c.1645, óleo sobre madeira, 39 x 51 cm, Harmen Steenwyck, National Gallery, Londres.
pincel

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