A Governanta, Jean-Baptiste-Siméon Chardin

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A Governanta, Jean-Baptiste-Siméon Chardin

O mundo de Chardin era o da burguesia esclarecida que ia ganhando influência na França em meados do século 18, e suas pinturas são instantâneos da vida dessa burguesia. Chardin foi influenciado pelos interiores e as naturezas-mortas dos mestres holandeses do século 17, cujas pinturas estavam em moda entre os colecionadores franceses da época.

Este quadro foi exibido no Salão de Paris e, embora modesto no tamanho e no tema, foi muito admirado. A técnica de Chardin e, em especial, sua execução meticulosa e seu perfeito senso de cor estão sempre em harmonia com o tema.

É esse sentido de unidade absoluta, onde nada está fora de lugar e nada é exagerado, que faz dele um grande mestre. Chardin nos lembra que olhar – as pessoas, os objetos, os quadros – pode ser um dos maiores prazeres da vida.

A pose e a expressão do menino e os toques hesitantes de azul no seu casaco e na fita do cabelo expressam a indecisão e a incerteza infantis.

A porta entreaberta que dá para um espaço desconhecido sugere a entrada da criança no mundo adulto e todas as dificuldades e prazeres imprevisíveis que o esperam. A assinatura de Chardin e a data do quadro foram traçadas de leve sobre a porta, na altura logo acima da mesa de jogos.

Onde vai o menino? Os livros que leva debaixo do braço indicam que está indo para a escola. A governanta foi responsável pela primeira fase de sua educação, mas agora ele tem que enfrentar coisas mais sérias.

A mesa de jogos foi observada com minúcia. Como o pai de Chardin era marceneiro, o artista foi criado na tradição de artesanato e tinha bons conhecimentos da arte de fabricar móveis. A gaveta semi-aberta indica o descuido do garoto. As cartas do chão foram tiradas da gaveta, que ele se esqueceu de fechar.

As cartas, que à primeira vista parece ter caído ao acaso no chão, foram escolhidas e dispostas com cuidado pelo artista. Elas apontam para a porta entreaberta; as duas primeiras são o rei de copas, que representa o amor, e o às de espadas, que representa a morte. Elas indicam as futuras provações e experiências do menino.

O menino está deixando para trás seus jogos e brinquedos, abandonados no chão aos seus pés. Esses instrumentos de lazer – as cartas, a raquete e a peteca – estão em primeiro plano, recebendo o mesmo destaque da cesta de costura do lado oposto, que representa um instrumento de trabalho mais produtivo.

Mestre da natureza-morta, muitos de seus trabalhos concentram-se apenas em objetos humildes como esta cesta de costura. Cézanne era um grande admirador da pintura de Chardin.

A governanta escova o chapéu de três bicos do garoto. É um gesto simbólico, repetido hoje de muitas maneiras diferentes, quando os pais dão os últimos retoques na hora em que os filhos saem para a escola. Embora a tradição identifique a mulher como governanta, ela está tão bem-vestida que até poderia representar a mãe do menino.

O gesto e a pose da governanta, a expressão de seu rosto e a forte linha vertical vermelha do encosto de sua cadeira expressam firmeza e certeza, qualidades próprias de seu papel como guardiã e professora do menino.

Chardin enviuvou cedo, aos 36 anos de idade, com dois filhos pequenos para criar. Ele só voltou a casar-se aos 46 anos. Saber disso traz uma particularidade especial às suas cenas da vida doméstica, como esta, e talvez explique a especial ternura com que ele registrou este relacionamento íntimo.

A Governanta, 1739, óleo sobre tela, 46,5 x 37,5 cm, Jean-Baptiste-Siméon Chardin, National Gallery of Canada, Ottawa.

Agora que você sabe mais detalhes sobre esse quadro de Chardin, experimente fazer uma releitura dele ou criar uma cena doméstica que demonstre os cuidados entre pais e filhos,  usando o material colorido que mais gostar.

Fotografe seu trabalho e compartilhe sua experiência conosco, nas redes sociais, usando a #historiadasartestalento

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